segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Precipitação

Esse texto meu é antigo, mas vejam se agrada:

A tarde caía em brumas. O trânsito caótico de final de expediente fluía lentamente pelas avenidas, numa profusão de sons, fumaça, pessoas. Havia pressa nos rostos, cansaço nos olhares, e uma vontade inquietante de retornar ao conforto dos lares, para o merecido descanso após mais um dia estafante de trabalho.
ELA observava o tráfego lento pela vidraça da janela do apartamento, enquanto a noite esfriava gradualmente, achando bonito o efeito das luzes serpenteando ao longo da avenida. Olhava para aquelas pessoas apressadas em abrigar-se da chuva iminente, pensava em todas aquelas vidas subordinadas ao ritmo frenético da vida moderna nos grandes centros urbanos. “Tantos olhares que nunca se cruzam, tantas histórias que nunca se encontram”, pensou. Ao fundo uma suave balada no rádio preenchia o ambiente, que agora já estava envolto pela penumbra. Nem se importou em acender a luz, de tão calma que se figurava aquela cena.
Lá embaixo, participante do trânsito quase estático, ELE encontrava-se distraído em meio a devaneios longínquos.  Já havia desistido da idéia de retornar para casa na hora costumeira, e impacientar-se com a morosidade do percurso não adiantaria muito àquela altura, embora outros motoristas não compartilhassem de seu ponto de vista. Provavelmente ele próprio fosse o primeiro a estressar-se, se fosse num outro dia, numa outra ocasião. Conscientemente ele previa que a chuva aproximava-se, e que quando chovia o trânsito que já estava desconcertado tornava-se infernal, mas naquele dia, isso lhe parecia irrelevante. Naquele dia, era como se não tivesse urgência em chegar a lugar algum.
Aqueles momentos de abstração vieram como um refúgio em uma semana que lhe testou os limites. Não lhe vinha à luz das lembranças mais próximas um momento sequer em que estivesse completamente absorto em si mesmo, distante das preocupações que lhes pesavam sobre os ombros. Do alto de seus quase quarenta anos, sobrevividos mais que vividos, via-se preso em um turbilhão de obrigações que às vezes lhes exigiam um esforço extra-humano, como as reclamações familiares, os contratempos da repartição da qual era encarregado, os relatórios e planilhas que teria que analisar, as contas a vencer, etc. Contrariando a situação, naquele momento, deleitava-se com aqueles poucos minutos de uma tranqüilidade disfarçada, chegava até a ser irônico sentir-se relaxado dentro do automóvel enquanto lá fora a rua assemelhava-se a uma arena de gladiadores, todos disputando alguns poucos centímetros que fossem. Entretanto, em seu íntimo pressentia que ao colocar o primeiro passo casa adentro, aquela quietude seria interrompida pelos reclamos rotineiros. Por isso, não lhe alterou o humor o fato de atrasar-se, o fato de o trânsito estar em um engarrafamento descomunal, e o fato de que pioraria muito ainda se a chuva concretizasse sua ameaça, se pudesse desfrutar um pouco mais daquela solitude quase confortável dentro do carro. Momentos como esse eram escassos...

E ae? O que acharam? Essa foi mais uma tentativa de aventurar no mundo da escrita, rsrs ^^ Dúvidas, críticas, sugestões, comentários, fiquem inteiramente à vontade! O retorno de vocês é muito gratificante!

2 comentários:

Rascunhos DÌtala disse...

Adorei!!!
mas é que eu sou meio sua "fã"
mesmo que vc nem mereça. ae justificou o texto deixou de ter cara dos trabalhos ctl C dos meus alunos. rsrssrrs. Descobri o lance de por a foto, se ainda quiser me procura pelos msn da vida ai te digo. E cuidado com o que eu te falei onti.
bjs

o ultimo poeta morto disse...

valeu pelo elogio, gostei muito, mas, que historia é essa de 'não merecer' hein? rsrs...beijos! C;

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