quinta-feira, 3 de março de 2011

A Fonte e o Cântaro

Como estou lendo o Evangelho Segundo Jesus Cristo do escritor português José Saramago, vi essa expressão numa passagem da concepção de Jesus, concepção advinda do ato carnal mesmo, entre Maria e José. Achei a expressão muito emblemática, por isso resolvi parafraseá-la, espero que com o devido consentimento do finado mestre Saramago, para fazer um post sobre gêneros. 

No referido livro, Saramago utilizou-se da expressão 'fonte' para designar o sexo masculino; somos a fonte da vida, aqueles que provêem a semente, o gérmen. O sexo feminino seria por sua vez o 'cântaro', o cálice, o receptáculo. Engraçado que 'fonte' é substantivo feminino, e 'cântaro' é masculino, ou seja, houve uma inversão. E não parece ser tão somente quanto aos gêneros da palavra,  visto que homens e mulheres têm suas peculiaridades, por mais que as convenções jurídicas queiram afirmar que todos são iguais em direitos e deveres perante a lei, mas como pode ser se, só a título de ilustração, temos períodos distintos para as licenças maternidade-paternidade e aposentadoria por idade? Bom, essa questão deixo a cargo dos juristas, o que pretendo explorar, além da óbvia distinção biológica, é a diferenciação ou semelhança interior.

Sempre se falou que mulheres são emotivas e homens são racionais. Não que não haja controvérsias. Há homens emotivos, e mulheres racionais. E há os dois sendo as duas coisas ao mesmo tempo. Mas aí eu me pergunto, por quê seria assim? Será uma mera adaptação evolutiva? Será que nossos hormônios nos direcionam forçosamente a essa configuração de seres? Há influência do meio, do ambiente, da educação? (se bem que a influência do meio está ligada a característica adquirida pela evolução, e acredito que vice-versa, no caso dos humanos) E o que dizer dos homossexuais?

São perguntas de dificílima resolução. Freud, o maior entendedor da mente que já pisou nesse mundo, já havia se feito essa pergunta no fim da vida: "o que querem as mulheres?" E o que querem os homens? Vocês sabem? Sei que se formos enveredar por esse debate, estaríamos fadados a passar o resto de nossas vidas numa discussão sem que cheguemos a um consenso, mas é algo que gosto de fazer, como exercício mental, pensar bastante nas questões existenciais que permeiam a vida. Pois bem, vou registrar minhas impressões.

Tanto homens quanto mulheres são sentimentais. Se os compartilham, se os externalizam, aí já é outra história. Todos têm seus momentos. E momentos de racionalidade também. O que é difícil é ser racional quando se está sendo emotivo, sempre que temos que tomar decisões quando estamos tomados de assalto por algum sentimento, creio que perdemos temporariamente a capacidade de estabelecer as relações entre as causas e efeitos de um problema, e sua efetiva resposta. E é deveras complicado também ser racional quando se tem que decidir sobre um evento que esteja imbuído de sentimento. O que quero provar com essa linha de raciocínio é que não dá mais para usar emoção e razão para diferenciar homens e mulheres, concordam? Ou não?

Me parece que os hormônios entram também pra bagunçar as coisas, no caso das mulheres no bendito período de TPM, e da gravidez, que as tornam demasiadaemente sensíveis, ou no caso dos homens, que a testosterona empurra para caçar jovens incautas nas noites da vida. Se nossos hormônios influenciam nosso comportamento, eu diria relativamente sim, em parte e em determinados e passageiros momentos. Já ouvi explicações que relatavam que hormônios femininos estariam mais relacionados à manutenção de uma relação de longo prazo, como no caso da gravidez, que necessitam dos homens para satisfazer suas necessidades, já que só podem engravidar uma vez por ano. Já os hormônios dos homens  estariam mais direcionados à 'caça', já que podem engravidar uma ou mais mulheres por dia, para cumprir seu papel biológico de perpetuar a espécie. Mas não podemos afirmar categoricamente que nosso  caráter comportamental se resume somente à influência biológica, como eu havia dito antes. Existe o lado psicológico também, nossas crenças e valores internalizados, nossos modelos mentais, nossa resposta a estímulos ambientais e todo o resto que direciona e diferencia o nosso comportamento do de outro sexo, e mesmo de outro ser do mesmo sexo.

Mas o fato mais importante, e que está acima de todas as diferenciações existentes, é que precisamos um do outro. Precisamos mesmo, em todos os sentidos. Pra que fique bem claro para os singles, homossexuais, celibatários, que vão contra-argumentar, dizendo: por quê eu precisaria do sexo oposto? eu explico: quando digo que precisamos em todos os sentidos, incluo não só o sentido sexual, afetivo, conjugal, mas o sentido profissional, familiar, comunitário, humano enfim, em qualquer grau. Até mesmo para criticar, rsrsrs! No fim, somos exatamente como o mestre falou com tanta propriedade, e com tamanha simplicidade, que resume tudo: somos a fonte e o cântaro.

1 comentários:

Jamily disse...

Uau!
Muito bom!!!!

Postar um comentário